Fotografias

Posted: quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011 by Arthur Alves in - , , , , ,
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                Às vezes eu me pego olhando essas fotos antigas. Fotos são momentos congelados vividos eternamente, um universo paralelo do próprio passado.
                Einstein disse que o tempo é relativo e que passado, presente e futuro são definições humanas para um tempo simultâneo instantâneo. Há pouco mais de dois anos, no meu passado eu estou sentado à beira da piscina com alguns amigos, sorrido pra mim mesmo hoje. Esse momento está congelado em uma foto e eu posso vivê-lo quantas vezes eu quiser. Lá eu estou me preparando pra entrar no convênio, de férias e, pelo menos na foto, feliz.
Pouco tempo depois nós cansamos e entramos para assistir TV, mas na foto nós continuamos lá sentados à beira da água, na verdade eu acho que alguém contou uma piada e, não importa o quanto eu tente, não consigo me lembrar qual seria ela.
Quase um ano depois eu estou com outros amigos na casa de um deles. É uma tarde só pra bagunça. Todos dissemos pros nossos pais que iríamos estudar. Estamos um por cima dos outros se apressando pra aparecer para a câmera que está estrategicamente preparada com o timer em dez segundos. Eu estou vendo tudo isso aqui olhando pra tela.
No dia da bagunça eu já sei tudo o que aconteceu no último ano da escola e hoje eu sei o que aconteceu no ano seguinte com cada um que está na foto, mas lá na piscina rindo da piada eu não sei nada disso.
Abrindo a minha carteira hoje, eu acho duas fotos no formato três por quatro. Esse tipo de impressão não leva qualquer emoção ou expressão, mas em uma delas eu estou careca. É fim de tarde e eu estou andando na rua como se eu fosse o rei dela, cabeça raspada logo depois do resultado dos aprovados no vestibular só pode significar uma coisa, eu sei disso e todo mundo na rua sabe. Eu vou tirar a foto pra matrícula na universidade, a fotógrafa parabeniza, a mulher que está na espera tira sarro e eu estou lá sentando olhando pra mim mesmo aqui. Eu estou com cara de sono. Lá e aqui.
Há poucos meses atrás eu estou sentado na mesa de um café com a minha prima, agente planeja muito o futuro, agente planeja os próximos dez anos da vida de cada um com a mesma despretensão que escutamos a música local, como sempre nós rimos de qualquer coisa. Largar a universidade, viajar, não ter filhos, ganhar o mundo... Uma mulher pede pra tirar uma foto, nós aceitamos. Depois, um sujeito da mesa ao lado nos pede fogo. Eu ainda não sabia disso enquanto olhava pra mim no futuro pela foto.
Eu decido tirar uma foto agora. Simples, com a câmera do PC, só pra congelar o ponto de interrogação gigante em cima da minha cabeça. Hoje eu acidentalmente lavei um copo quebrado e cortei dois dedos. Em um futuro indefinido estou olhando pro meu sorriso amarelo acenando com os dedos enfaixados. Lá eu sei o que acontece depois, aqui eu ainda não sei.
Invariavelmente eu estou rindo nas fotos, olhando pra elas eu me lembro o quanto eu dava importância para problemas que hoje eu acho simples, mas eu não dava importância ao ponto de guardar isso pra eternidade em uma fotografia. Agora eu me lembro que durante a tarde na piscina eu falei pro meu amigo o quanto ele estava maravilhosa com os óculos de sol. As meninas riram, elas sempre riem do que eu falo. Antes de falar isso, antes da foto, eu já sabia que todos ririam. Há pouco mais de dois anos eu já sabia, há trinta minutos eu ainda não sabia.
Todos sorrindo. Não me lembro que tipos de problemas eu criava naquele passado, prestes a entrar no último ano da escola e agente contando piadas na beira da piscina. Eu sei o que aconteceu com cada um dos que estão na foto até hoje, não importa cada provação que eles tiveram que passar, sempre vão estar rindo nas fotos.
As fotografias dizem que a minha vida foi no mínimo divertida até agora. E as suas?